Rivoli - Da impossibilidade de diálogo entre duas espécies
Recebi este mail que achei delicioso….
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“Da impossibilidade de diálogo entre duas espécies
A penúltima vez que fui ao Rivoli foi no dia 7 de Julho, ver uma peça de Eugéne Ionesco, “Rhinocéros”.
Numa cidade abstracta (mas claramente representativa do desenvolvimento ocidental), surge um Rinoceronte que, com a sua força animal, destrói vários equipamentos urbanos, acabando até por causar a morte de alguns Cidadãos.
O pânico instaura-se quando se verifica que afinal este ser não está só: parece haver uma epidemia de Rinocerontes. Pouco a pouco, após o terror inicial, os Cidadãos parecem aprender a conviver com eles e, inclusivamente, a admirar a sua bestialidade, prepotência e (i)lógica animal.
E é este o simples princípio do contágio. A Rinocerite vai gradualmente transformando os Cidadãos em Rinocerontes, e a resistência dos que não gostam desse bicho vai sendo aniquilada pelo princípio da maioria dominante.
A última vez que fui ao Rivoli foi no dia 15 de Outubro, ver uma peça de Regina Guimarães, “Curto-Circuito”. Esse originou uma faísca, que originou uma Rivolução.
Curiosamente, passou a coabitar nesta cidade, desde então, um Elefante Branco. Um Elefante, que até hoje de madrugada, habitava pacificamente as entranhas de um equipamento público da cidade.
A emergência do Elefante Branco, ao gerar-se espontaneamente, era a de alertar para a ocupação dos espaços públicos pela Rinocerite, bem como a sua invasão nos espaços interiores dos Cidadãos (almas e outras tais edificações).
Ele estava lá dentro, enclausurado atrás das grades, sem água, luz e praticamente sem alimento, à espera duma possibilidade de diálogo com a espécie dominante. Mas o Rinoceronte, dentro da sua endemia, não conseguiu reconhecer a diferença, o Outro. O Rinoceronte, através de vários mecanismos, negou a pluralidade e a diferença, matou o princípio básico da convivência entre espécies.
E por isso, hoje, o Elefante Branco foi roubado cobardemente, numa madrugada despótica, porque perturbava a propagação totalitária da Rinocerite.
Dos Elefantes Brancos sabe-se que é característica vital à sua espécie continuarem instintivamente a surgir, mas no fim, é urgente perguntar: entre o Elefante Branco e o Rinoceronte onde está o Cidadão?