Em antestreia…
Em antestreia…
Ser beirão
Quando se fala das beiras, alguém traz à memória um sotaque assibilado, com expressões tão remotas que o moderno ouvido lusitano já não está acostumado. Da cultura beirã vem o uso de expressões, os modos de comunicação e linguagem únicos que facilmente são identificados.
Porém a cultura de um povo não se define só pela forma de falar e de comunicar: são um conjunto de sons, de cheiros, de sabores, de gestos e de expressões tão genuínas como os antepassados que as viram nascer…
O som e o cheiro, cheiro a madressilvas, a mosto, a vinho maduro… este é o cheio das beiras, tão enraizado na pela que quem lá vive, quase já nem o sente: a cultura ligada ao vinho, à vinha, à região do Dão e de Lafões, às vindimas e S. Martinho, ao mosto e às pipas.
Obviamente que associado ao vinho encontra-se sempre a boa comida, inevitavelmente os enchidos, a broa, a marmelada entre outros - é uma ofensa para um beirão que alguém vá a sua casa e não coma, por muito pouco que seja. Em zonas em que a fartura não abunda, em que a pobreza é visível em casa ou lugarejo, é comovente o singelo gesto de oferecer mesmo o pouco que se tem.
E nestas merendas improvisadas num qualquer alpendre ou sombra, mais prazenteira, o beirão conta histórias de tempos remotos, contos e lendas, recorda antepassados e lugarejos, festas e bailaricos. Fala, conversa e convive, com uma mestria como só ele sabe fazer. Trata-nos como se fossemos a sua família, parentes que de longe o vêm ver e quebrar um pouco a solidão e isolamento a que está devotado.
Em todas as aldeias das nossas serras, existe sempre um rosto enrugado, uma pele queimada pelo sol e um sorriso “de encher a alma” à nossa espera.
Mas falar de cheiros, sabores e paladares, omite em parte, a essência da cultura beirã: o modo único e singular da manufactura tradicional.
Podia-se definir que o artesanato é a expressão mais visível e palpável dessas artes ancestrais, mas também tem de considerar a confecção de pratos culinários típicos, artesanato – o modo como o fumeiro é feito, como são cozidos determinados alimentos, ou que tipo de vasilhame é confeccionado / servido. Pode-se então concluir que a gastronomia beirã é o expoente máximo de artesanato, pois tudo pode ser confeccionado de maneira moderna, contudo sem o mesmo “sabor”: rancho tradicional é confeccionado em panela de ferro forjado, sobre as brasas. O rancho confeccionado em lume de gás e em panela de inox, não é rancho? Claro, mas não tem o mesmo “sabor”!
A preservação das tradições revela-se vital para a sustentabilidade do turismo, nomeadamente o turismo de montanha e de natureza, pois o visitante / turista que visita o interior de Portugal, procura as tradições. Preservar e incentivar a manufactura tradicional, sons, gestos, paladares e modos e tradições são as formas únicas de identificar um povo e de mostrá-lo com o orgulho de ser beirão.
Brevemente numa publicação perto de si…
R.

