| SE FOSSE UM JOGADOR DE FUTEBOL DOS ANOS 80, COM BIGODE, QUAL SERIA? | |
Você é o António Oliveira: |
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| SE FOSSE UM JOGADOR DE FUTEBOL DOS ANOS 80, COM BIGODE, QUAL SERIA? | |
Você é o António Oliveira: |
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Por incrível que pareça, não tenho rede nas escadas de minha casa… no local que quero cada vez mais meu, onde me apaixono vezes sem conta por esta cidade linda, não me consigo ligar ao mundo… talvez por este mundo ser só meu, ser só o meu recanto, o lugar em que gosto mais de estar…já partilhei este lugar com duas pessoas… por motivos diferentes, com historias totalmente opostas, deambularam por estas escadas ao toque de algum álcool e de muita entrega, nem que fosse causa da carga etílica constante… destas estadas já eu falei muito, mais do que uma vez, do que sinto e das sensações boas e quentes que me trazem… estas escadas são só minhas, assim à noitinha ou num nascer do sol que vejo constantemente…. olho para a minha cidade, cidade de amores e amantes, tal como estas escadas…. cidade de luzes e cores, mas também de lugares sombrios e soturnos… tal como estas escadas… fecho os olhos e ouço os sons: ao longe um cão a ladrar para lua imensa – cheia – que paira no alto… um grupo de putos passa na avenida lá em baixo a rir – sim, esses ébrios de juventude e felicidade, sem preocupações – só a curtir… talvez só uma curte… a música que pairava ao longe cessou por instantes… só os carros a passar, vagarosamente ao fundo me trazem a noção que a cidade fervilha de sangue… ouço a água… a correr… ininterrupta… e deleito-me a sentir em todo o meu corpo exposto aos elementos, o seu frio, o seu aconchego… bebo mais um golo de vinho.. quente… e relembro os dois copos que acabei de partir… que fui comprar especialmente para beber este vinho… para beber-mos especialmente este vinho… o primeiro deixei cair ainda no saco e o outro… a retirar os vestígios da água na qual o passei, partiu-se nas minhas mãos… um sinal… dois sinais… que hoje tenho de estar aqui, nas minhas escadas, e que os olhos verdes afinal são só os meus… dois… no centro da minha face que está endurecida de raiva e calor… porque o vinho aquece… busco o copo de sempre, daquele tipo que só tenho um, o meu, porque sempre bebi por ele sozinha… ele é tal qual as minhas escadas… minhas… nas quais eu tenho de estar sozinha e partilhar só com quem merece… os P. Mereceram… os dois… e por isso estas escadas foram nossas… o meu olhar passa agora para o horizonte que não vejo mas sei que está lá, onde as luzinhas cor de laranja deixam de brilhar… conheço de cor cada uma delas, conheço de cor cada fileira de luzes laranja, cada ponto de luzes brancas… conheço de cor o que vejo destas escadas… das minhas escadas… Mais um gole de vinho no copo que é mais meu do que corpos que passaram por estas escadas… e espero… espero que algo se altere… que um telefone toque, que um ruído surja vindo no nada e me acorde desta apatia, desta resignação – sim, porque é de resignação que nestas escadas– hoje – se fala… lembro-me – tirei o som do telemóvel… afinal eu vim escrever e nada mais… que quisesse diferente teria ficado no bar a beber limonciello ou margaritas ou então a Carlsberg de sempre… se eu quisesse de facto estas escadas preenchidas, teria ficado lá e certamente teria um outro“bom dia”… picam os insectos nesta noite.. picam e incomodam, mas não chegam a retirar o meu sangue… é ruim demais, ácido demais, demasiado corrosivo… como eu … demasiado corrosivo e demasiado impróprio… porque nestas escadas tenho de ser só eu, por agora, porque os olhos verdes não eram os meus… ou até eram… passaram foi ao lado… não resisto e pego no telemóvel, só para verificar que continua quieto e mudo, sem nada de novo nele… e olho para as luzes da cidade, da minha cidade, sob a qual escrevo linhas sem conta de amor e paixão, de verdade e de desespero… a minha cidade continua imóvel… imóvel… imóvel… imóvel demais… pergunto-me durante quanto mais tempo vou conseguir estar aqui a escrever.. quanto tempo mais vou demorar a voar destas escadas em queda livre e acabar com esta imobilidade aparente, mas corrosiva como ácido em andamento… pergunto e não sei responder… pergunto-me se devo ou não subir os três degraus para cima, necessários para ter rede… se devo buscar uma manta ou vestir um casaco mais grosso, porque o frio começa a preencher não só a pele como o espírito… continuo a teclar… apetece-me falar com alguém, com alguém que partilhou estas escadas comigo mas resisto à tentação… não, tenho de estar aqui sozinha… afinal só tenho um copo, o de sempre… só um… (pausa para dobrar as pernas e acabar este copo) … e pausa também… para acabar com esta vida e começar outra, a desejar que os olhos verdes sejam meus… como estas escadas… como esta cidade… como esta paz… as minhas escadas… a minha cidade… e os olhos verdes que quero meus…
“Meus lindos olhos” …
…
Olhos verdes…
“Sempre apanhas-te o tal comboio
Eu já perdi dois ou três
Entre o ócio e as esquinas
Ganhei o vício da estrada
Nesta outra encruzilhada
Talvez agora a coisa dê
O passado foi à história
Cá estamos nós outra vez
Cá estamos nós outra vez”
Jorge Palma
lol